A legislação do trabalho intermitente trouxe flexibilidade para empresas e trabalhadores brasileiros. Formalizado pela Reforma Trabalhista de 2017 (Lei nº 13.467/2017) [1], esse contrato permite a prestação de serviços de forma não contínua, alternando períodos de atividade e inatividade.
Mas, afinal, o que a legislação do trabalho intermitente realmente estabelece? Como as empresas podem se adequar e quais os direitos e deveres de ambas as partes?
Este guia completo e atualizado desvenda todos os aspectos do trabalho intermitente, desde a base legal na CLT até as recentes decisões do Supremo Tribunal Federal (STF), garantindo que sua empresa esteja em conformidade e otimizada para as novas realidades do mercado.
O que diz a CLT sobre o Trabalho Intermitente? Artigos 443 e 452-A em Detalhes
A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) é a espinha dorsal da legislação trabalhista brasileira. Com a Reforma de 2017, o trabalho intermitente foi inserido no texto legal, principalmente através do Artigo 443, § 3º, e do Artigo 452-A. [2]
O Art. 443, § 3º, define o contrato de trabalho intermitente como aquele em que a prestação de serviços, com subordinação, não é contínua, ocorrendo com alternância de períodos de prestação de serviços e de inatividade, determinados em horas, dias ou meses.
§ 1º – Considera-se como de prazo determinado o contrato de trabalho cuja vigência dependa de termo prefixado ou da execução de serviços especificados ou ainda da realização de certo acontecimento suscetível de previsão aproximada. [2]
Essa flexibilidade é a característica central, permitindo que o empregador convoque o trabalhador conforme a demanda, sem a obrigatoriedade de uma jornada fixa.
Já o Art. 452-A detalha as regras operacionais e os direitos específicos dessa modalidade.
Ele estabelece que o contrato deve ser celebrado por escrito e conter o valor da hora de trabalho, que não pode ser inferior ao valor horário do salário mínimo ou àquele devido aos demais empregados que exerçam a mesma função.
Principais pontos do Art. 452-A:
- Contrato Escrito: A formalização é obrigatória, garantindo clareza nas condições.
- Valor da Hora: Deve ser especificado e respeitar o mínimo legal ou o piso da categoria.
- Convocação: O empregador deve convocar o trabalhador com, no mínimo, três dias corridos de antecedência, informando a jornada.
- Resposta do Empregado: O trabalhador tem um dia útil para responder à convocação. O silêncio é considerado recusa.
- Recusa: A recusa da oferta não descaracteriza a subordinação.
- Inatividade: O período de inatividade não é considerado tempo à disposição do empregador e não é remunerado, permitindo que o trabalhador preste serviços a outros.
- Pagamento Imediato: Ao final de cada período de prestação de serviço, o empregado deve receber imediatamente a remuneração, férias proporcionais + 1/3, décimo terceiro salário proporcional, repouso semanal remunerado e adicionais legais.
- Férias: A cada doze meses, o empregado adquire direito a um mês de férias nos doze meses subsequentes, período em que não pode ser convocado pelo mesmo empregador.
A Decisão do STF e a Constitucionalidade do Trabalho Intermitente em 2024/2025
Por anos, a constitucionalidade do trabalho intermitente foi objeto de debate e questionamentos no judiciário brasileiro. No entanto, em dezembro de 2024, o Supremo Tribunal Federal (STF) reafirmou a validade dessa modalidade de contrato, trazendo maior segurança jurídica para empresas e trabalhadores. [3]
A decisão do STF, que considerou o contrato de trabalho intermitente constitucional, encerrou um período de incertezas e consolidou a Reforma Trabalhista nesse aspecto.
Isso significa que as empresas podem continuar utilizando essa modalidade com a garantia de que ela está em conformidade com a Constituição Federal, desde que sigam rigorosamente as regras estabelecidas pela CLT e demais regulamentações.
Essa reafirmação é crucial para setores que dependem da flexibilidade da mão de obra, como comércio, serviços e eventos, permitindo um planejamento mais estratégico e a otimização de custos com pessoal.
Para o trabalhador, a decisão mantém a formalização do vínculo, com todos os direitos trabalhistas proporcionais garantidos, além da liberdade de atuar para múltiplos empregadores.
Regras de Convocação e Recusa: O que a Lei Exige?
Um dos pilares do trabalho intermitente é o sistema de convocação e resposta.
A clareza e o cumprimento dessas regras, nos conformes da legislação do trabalho intermitente, são essenciais para a validade do contrato e para evitar passivos trabalhistas.
Processo de Convocação:
- Antecedência: O empregador deve convocar o trabalhador com, no mínimo, três dias corridos de antecedência da data prevista para o início da prestação de serviços.
- Meio de Comunicação: A convocação pode ser feita por qualquer meio de comunicação eficaz, como e-mail, WhatsApp, SMS ou aplicativos específicos de gestão de equipes. É fundamental que haja um registro da convocação e da resposta.
- Informações: A convocação deve informar claramente a jornada de trabalho, o local e o valor da remuneração.
Resposta do Trabalhador:
- Prazo: O empregado tem um dia útil para responder à convocação.
- Silêncio: A ausência de resposta dentro do prazo é interpretada como recusa da oferta.
- Recusa e Subordinação: A recusa da convocação não descaracteriza a subordinação e não pode gerar penalidades ao trabalhador. Ele tem a liberdade de aceitar ou não a oferta de trabalho, sem prejuízo do vínculo empregatício.
É importante ressaltar que, uma vez aceita a convocação, o descumprimento da oferta por qualquer das partes, sem justo motivo, pode gerar multa de 50% da remuneração que seria devida, a ser paga à outra parte no prazo de trinta dias conforme previsto pela legislação do trabalho intermitente.
Direitos e Remuneração: Como calcular o pagamento imediato?
Embora a prestação de serviços seja intermitente, o trabalhador possui todos os direitos trabalhistas garantidos pela CLT, pagos de forma proporcional ao final de cada período de trabalho. [2]
Direitos do Trabalhador Intermitente:
- Remuneração: Valor da hora ou dia trabalhado, conforme acordado em contrato.
- Férias Proporcionais + 1/3: Calculadas sobre o valor da remuneração do período.
- Décimo Terceiro Salário Proporcional: Calculado sobre o valor da remuneração do período.
- Repouso Semanal Remunerado (DSR): Incluído no pagamento ao final do período.
- Adicionais Legais: Horas extras, adicional noturno, insalubridade, periculosidade, se aplicáveis.
- FGTS: Depósito mensal do valor correspondente ao período trabalhado.
- Previdência Social: Recolhimento da contribuição previdenciária.
Exemplo de Cálculo de Pagamento Imediato:
Suponha que um trabalhador intermitente seja convocado para trabalhar 20 horas em uma semana, com valor da hora de R$ 10,00.
Ao final do período, o cálculo seria:
| Item | Cálculo | Valor |
|---|---|---|
| Remuneração | 20 horas * R$ 10,00 | R$ 200,00 |
| DSR (1/6 da remuneração) | R$ 200,00 / 6 | R$ 33,33 |
| Férias (1/12 da remuneração + DSR) | (R$ 200,00 + R$ 33,33) / 12 | R$ 19,44 |
| Adicional de Férias (1/3 das Férias) | R$ 19,44 / 3 | R$ 6,48 |
| 13º Salário (1/12 da remuneração + DSR) | (R$ 200,00 + R$ 33,33) / 12 | R$ 19,44 |
| Total Bruto | R$ 278,70 |
Sobre esse total, incidirão os descontos de INSS e IRRF, conforme a tabela vigente. O empregador deve fornecer um recibo de pagamento detalhado, discriminando todas as parcelas.
Portaria 671 e eSocial: Obrigações para o Trabalho Intermitente
Além da CLT, a Portaria nº 671/2021 do Ministério do Trabalho e Previdência trouxe regulamentações adicionais importantes para a legislação do trabalho intermitente, detalhando aspectos que antes eram omissos ou ambíguos. [4]
Essa portaria aborda pontos como o contrato de trabalho, pagamento, férias, permissões, período de inatividade, verbas rescisórias e contribuições previdenciárias, oferecendo maior clareza para a aplicação da lei.
O eSocial no Trabalho Intermitente:
O eSocial é o sistema unificado do Governo Federal para o envio de informações trabalhistas, previdenciárias e fiscais.
Para o trabalho intermitente, o eSocial é fundamental para o registro correto de todos os eventos, desde a admissão até o pagamento e o desligamento.
Principais obrigações no eSocial:
- Admissão: Registro do contrato de trabalho intermitente.
- Convocação e Aceite: Embora a convocação e o aceite não sejam eventos diretos no eSocial, o registro da jornada e do pagamento subsequente é essencial.
- Pagamento: Informação detalhada das parcelas pagas ao final de cada período de trabalho (remuneração, férias, 13º, DSR, adicionais).
- Recolhimentos: Geração das guias de FGTS e INSS com base nos valores pagos.
O cumprimento rigoroso das exigências do eSocial é vital para evitar multas e autuações, garantindo a conformidade da empresa com a legislação do trabalho intermitente.
Saiba mais: eSocial e Contrato Intermitente: Guia para Empregadores.
Vantagens e Riscos Jurídicos para a Empresa
O trabalho intermitente oferece vantagens significativas, mas também exige atenção a riscos jurídicos.
Vantagens:
- Flexibilidade: Adaptação da força de trabalho à demanda real da empresa, ideal para picos sazonais ou projetos específicos.
- Redução de Custos Fixos: Pagamento apenas pelas horas efetivamente trabalhadas, eliminando o custo de ociosidade.
- Formalização: Garante a formalização do vínculo empregatício, com todos os direitos proporcionais, evitando a informalidade.
Riscos Jurídicos e Como Evitá-los:
- Descaracterização: O principal risco é a descaracterização do contrato intermitente para um contrato por prazo indeterminado, caso a prestação de serviços se torne contínua e habitual. Isso pode gerar passivos trabalhistas significativos perante a legislação do trabalho intermitente.
- Como evitar: Mantenha a alternância de períodos de atividade e inatividade. Evite convocações que configurem uma jornada fixa ou contínua.
- Convocação e Pagamento Irregulares: Falhas na convocação (prazo, meio) ou no pagamento imediato das verbas proporcionais podem gerar multas e ações trabalhistas.
- Como evitar: Utilize sistemas de gestão que automatizem e registrem as convocações e os pagamentos, garantindo a conformidade com os prazos e as parcelas devidas.
- Desrespeito aos Direitos: A não concessão de DSR, férias ou 13º salário proporcionais, ou o pagamento de valor inferior ao mínimo legal, são infrações graves.
- Como evitar: Tenha um controle rigoroso dos cálculos e pagamentos, e utilize ferramentas que auxiliem na gestão desses direitos.
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Perguntas Frequentes (FAQ)
Não. O trabalhador intermitente não tem direito a seguro-desemprego, pois os períodos de inatividade não são considerados desemprego. O benefício é concedido apenas em caso de demissão sem justa causa de um contrato por prazo indeterminado.
O empregador deve convocar o trabalhador com, no mínimo, três dias corridos de antecedência da data prevista para o início da prestação de serviços.
Sim. O trabalhador intermitente tem o direito de recusar a convocação sem que isso gere qualquer penalidade ou descaracterize a subordinação. O silêncio após um dia útil da convocação é considerado recusa.
As férias e o 13º salário são pagos de forma proporcional ao final de cada período de prestação de serviços, juntamente com a remuneração e o DSR.
Não há um limite mínimo de horas para a convocação. No entanto, a jornada diária não pode exceder 8 horas (salvo exceções legais) e a semanal 44 horas, respeitando os limites da CLT.
Referências
[1] Planalto. Lei nº 13.467/2017 (Reforma Trabalhista).
[2] Planalto. DECRETO-LEI Nº 5.452, DE 1º DE MAIO DE 1943 (Consolidação das Leis Trabalhistas – CLT).
[3] Supremo Tribunal Federal. Contrato de trabalho intermitente é constitucional, afirma STF.
[4] Diário Oficial da União. PORTARIA/MTP Nº 671, DE 8 DE NOVEMBRO DE 2021.
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